15.90€

Title:  ILUSTRAÇÃO E BANDA DESENHADA NO AR.CO

Price: 15.90€

ISBN:  978-972-8469-72-6

Dimensões: 1 cm × 18 cm × 30 cm

Peso: 300 g

Data:  2008

Edição: 

Número de Páginas:  32 - 32 Ilustrações

Colecção:  Colecção Reticências

Excerto do Livro:  application/pdf iconMONOFOLHA_BD.pdf

Texto de Apresentação: 

O departamento de Ilustração / Banda Desenhada do Ar.Co tem vindo a desenvolver um trabalho pedagógico continuado na área da ilustração editorial de imprensa e a colaborar, neste âmbito, com várias revistas e jornais.

Grande parte deste trabalho centra-se na compreensão e aprendizagem dos mecanismos criativos e técnicos relacionando imagem e palavra de forma directa ou metafórica, produzindo uma expressão autoral.

Os trabalhos aqui impressos foram desenvolvidos no contexto do curso, subordinaram-se ao tema geral da Colecção Reticências, foram acompanhados pelos formadores e apresentam-se ao público como objectos finalizados com competência gráfica e autoral.

Jorge Nesbitt
Responsável | Departamento de Ilustração e Banda Desenhada | AR.CO

BLOG Ilustração | BD

Notas tópicas sobre ideias utópicas

1. As utopias fascinam. O fascínio é feito de ignorância, pelo menos parcial. Prefiro considerar as utopias, todas elas, com Cioran, uma forma de ingenuidade, se não mesmo de loucura. A faculdade que se lhe deve votar é antes o cepticismo. Independentemente da mais corrente das atitudes.

2. A mais antiga utopia, e que se encontra permanentemente no passado, é o do “jardim fechado”, o paraíso terrestre que abandonámos; a Idade de Ouro, Atlântida, o ventre materno, são suas variações. As mais recentes, que vieram com a modernidade, apontam ao futuro, um futuro qualquer, e podem revestir-se do mais maleável e fantástico dos plásticos e tecnologias tanto quanto retornar a um estado da Natureza (que jamais existiu): expressa-se nos mais diversos graus de natureza política (-ismos.1) ou artística (outros –ismos.2). O facto de poder dizer “utopias” e inventariar seus autores esbate a força de cada uma.

3. A própria palavra parece prometer um lugar cuja única certeza que nos oferece é que “não é aqui” Impelindo-nos, portanto, a um movimento de viagem ou a um gesto de construção. Bebendo dos ícones de ambos os tipos de –ismos referidos acima, Oscar Martinez expressa esse estímulo, com um grão de sal de ironia.

4. A faceta brilhante da utopia é permitir ver e pensar para além das coisas “tal qual elas são”, ou seja, não aceitar sequer a possibilidade das coisas serem alguma coisa de certo. Assim, podemos imaginá-las (torná-las imagem) como cidades visíveis ou ocultas, ilhas de meios-dias ou Laputas, enseadas amenas ou portos blindados, terras do Nunca: Joana Silvestre contorna-as a lápis.

5. De utopia deriva eutopia - “boas” utopias, que se confunde com o primeiro termo, sede do que passou, plano para o que virá - e distopias - “más” utopias, quer as da ficção quer as que se vieram a provar por terem sido implementadas (novamente os –ismos, mormente os .1); são as terras do Nunca-mais-outra-vez ou do Esperemos-que-nunca: Tiago Martins, d’aprés Huxley, ilustra-as, falsamente felizes.

6. Se não é aqui, mas ali, tem de haver melhores galinhas no campo da vizinha. Simples variação do João-que-ri e João-que-chora, Vasco Martins mostra que, de facto, rir não só é o melhor remédio como mais vale um riso no ar do que dois chorares na mão.

7. De todas estas topias, há ainda as heterotopias, “espaços outros” (Foucault). A banda desenhada e a ilustração, por viverem um tanto ou quanto fora do círculo maior do diálogo das artes – não por fraqueza sua, mas por falta de rigor do olhar ecuménico dessas mesmas artes -, acabam por se constituir numa heterotopia, um alhures no qual ainda se podem experimentar determinadas linguagens que se têm afastado de outros meios (a emoção, a figuração redonda, a plena narrativa), e também no qual já se procuram efectivar conceitos inalcançáveis por agora (corpos perfeitos, sociedades futuras, ciências livres, deslimitação de praticamente tudo, a fantasia na rua).

8. Maria Imaginário abre espaço a esse espaço: sob a ilusão de pequeno conto para os mais pequenos, o delicodoce imaginário oculta qualquer coisa de mais negro, de podre, de esquisito, ainda que não saibamos o quê.

9. Aviso à navegação: muitos se preocupam e querem impedir o 1984, de George Orwell, de acontecer. Não há problema, é impossível realizar-se. Já O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, é que já vingou. CCTV, chip e Cartão de Cidadão. Fia-te na virgem e não corras.

Pedro Moura

Colecção Reticências